“Tô vendo muita gente bizarra, aqui. Eu queria estar como vocês”, disparou Arthur Ribeiro, vocalista da Theatro de Seraphin, durante a apresentação da banda na 1ª Convenção de Tatuagem da Bahia, hoje (domingo) à tarde. Depois do show, Ribeiro confessou que a sua fala no palco foi um pouquinho exagerada: “Não ia conseguir chegar nesse nÃvel de bizarrice”.
Acho que ele estava se referindo à profusão de ultra tatuados, perfurados e modernosos que desfilavam à vontade pela convenção, felizes de terem encontrado um lugar para chamar de seu bem no meio da velha e tradicional Bahia. A convenção foi organizada pelo RedPigs Motoclube e já recebeu cerca de 3.000 pessoas. Mas o dia ainda não acabou. São 48 stands de tatuadores da Bahia, Rio e São Paulo mostrando seu trabalho e, naturalmente, trabalhando ali mesmo.
Para dar ânimo aos wannabe tatuados, shows do mundinho rocker baiano acontecem desde as duas da tarde e a Sonoomoon leva a festa noite adentro. “Esse ano bancamos tudo com nosso dinheiro, só tivemos apoios. Mas ano que vem tem mais”, garantiu Nilton Rezende, um dos produtores do evento. A produção, aliás, foi muito elogiada por todos os participantes. Um contraponto interessante à s opiniões dos que dizem que falta público e organização em qualquer coisa na Bahia que não seja axé.
Se tem uma coisa que pessoas tatuadas parecem gostar mais do que suas próprias tatuagens, é ver as tatuagens dos outros.O evento estava cheio de fotógrafos de estilo, buscando idéias para suas próximas intervenções.
Além disso, as camisetas engraçadinhas, cintos quadriculados e colares moderninhos marcavam presença nos stands. Não basta ter uma tatuagem, tem que saber exibÃ-la. “No ano que vem, queremos trazer ainda mais pessoas e tornar a convenção algo maior, um verdadeiro ponto de encontro”, disse Rezende. Para dar o tom retrô/modernete, uma exposição de carros antigos atraÃa as atenções na área aberta da Espetáculo, onde ocorria o evento.
Novidade – Para os meramente iniciados no mundo tatoo-freak, toda aquela parafernália já parece assustadora. Mas eis que de repente, no meio do burburinho, aparece algo que chama ainda mais atenção. É Audrey Consiglio, artista circense que há alguns anos faz performances com cobras. Vestida como dançarina do ventre exótica, Audrey exibia Tânia, uma de suas jibóias, de aproximadamente 9 anos.
Enquanto Tânia posava para as fotos, sua dona me explicou o motivo do fascÃnio que exerce sobre os reles mortais, mesmo aqueles. “As pessoas gostam do incomum, da novidade. É por isso que o circo existe”. Falou, tá falado.
Freak Show – Mas nem o mundinho rocker, fashion ou..ahm…circense, eram as atrações reais da Convenção. A atração mesmo tem nome, telefone e endereço em Buenos Aires, Argentina. Em meio a toda a poluição visual, cromática e semiótica do evento (choviam caveiras, flores, tribais, rostos dos Ãdolos e Ãcones da cultura pop nos lugares, digamos, mais inusitados), La Negra se destacava. De longe.
A argentina La Negra veio a Salvador especialmente para sair do chão. E não é uma metáfora. Uma das criadoras da revista Piel, La Negra se tornou famosa depois de começar a fazer a suspensão, uma performance que nada mais é do que perfurar pontos especÃficos do corpo, pendurar ganchos e…suspender-se.
Sua performance na noite de sábado causou furor na platéia. “Foi êxtase total, loucura. Muita gente tem horror, mas mesmo assim assistiu”, comentou Nilton Rezende.
Confesso que encontrar La Negra não foi nada fácil. Na primeira vez que a vi, pensei que era um fauno ou alguma criatura mágica saÃda de um filme de Guillermo Del Toro. Me explico: a moça tem um visual bastante inusitado, que além dos piercings e tatuagens inclui bolinhas de silicone por dentro da pele. Duas na testa e duas no colo(pouco abaixo do pescoço). Isso sem falar nas pequenas cicatrizes pelo corpo. Quando me avisaram que ela era a tal, saà em sua caça. Mas, como bom fauno, ela tinha acabado de sair de todos os lugares onde eu estava.
La Negra contou como começou a fazer suspensão, há 5 anos, e as razões pela qual gosta da técnica: “Me sinto muito bem comigo mesma, gosto tanto que faço em casa”. Falou também da adrenalina e emoção de compartilhar a experiência transcendental com outras pessoas. E ainda me presenteou com verdadeiras lições como a de que “a suspensão é só uma escada e a dor é o primeiro degrau”, e explicações detalhadas e visuais de como é o procedimento. Um pouco demais para o meu estômago sensÃvel.
Na Foto: La Negra mostra o que é ter estilo próprio (a foto é minha também)

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